sábado, 2 de julho de 2011

Da nossa história…(16)

Da alegre expectativa à dúvida permanente
apoiado na História dos Escoteiros de Portugal - de Eduardo Ribeiro e jornal escotista “Sempre Pronto “)

A dinâmica introduzida pelo Eng.º Jorge Jardim nos Escoteiros de Portugal, reflecte-se, em primeiro lugar na própria direcção associativa, mas também nos grupos de escoteiros, animados por uma onda de entusiasmo. Para esse entusiasmo muito contribuiu a preparação de um Acampamento Nacional, cuja falta de há muito se fazia sentir, e a perspectiva de realização de três reuniões internacionais, a concretizar durante o mês de Setembro de 1950.

Acampamento Nacional, em Carcavelos
No magnífico pinhal da já desaparecida Quinta do Junqueiro, em Carcavelos, começaram a convergir no dia 9 de Setembro os Grupos da Região Centro, os quais, sob o comando do seu Chefe Regional Ernesto Clímaco do Nascimento, tinham como principal missão a preparação do terreno e iniciar a montagem do Acampamento, aos quais se juntaram, no dia 13, os Grupos da Região Sul, chefiados por Luís Nascimento Pina, Chefe do Grupo n.º 6, e no dia 14, os Grupos da Região Norte, comandados pelo Chefe Regional Aníbal Tomás dos Santos.
A direcção do Acampamento estava entregue aos chefes Amâncio Salgueiro, António Mira Calhau e João Clímaco do Nascimento. Os serviços de secretaria foram orientados pelo Chefe José Miranda de Melo e João Patrício de Melo, auxiliados por Otelo Henriques de Sousa e Justino Estevão da Silva. O dr. Baltasar Rebelo de Sousa dirigiu os serviços médicos. No acampamento funcionou ainda uma tenda especialmente dedicada à venda de livros escotistas e artigos do SMU, serviço a cargo do Chefe Capitolino Macedo.
Apesar de algumas deficiências de planeamento, especialmente nos abastecimentos, a capacidade de improvisação superou muitos problemas e graças ao enorme esforço dos escoteiros e seus dirigentes, os campos apresentavam um agradável aspecto, exibindo construções e técnicas típicamente escotistas, que encantaram os milhares de visitan-tes que por ali passaram a apreciar as actividades dos escoteiros e a sua “engenharia” de campo, tão caracteristica daqueles tempos.
O Presidente da AEP, engº Jorge Jardim visitou o acampamento na manhã do dia 17, apreciando em pormenor todo o trabalho realizado pelos grupos.
Na tarde do mesmo dia, o acampamento foi visitado pelos Comissários Internacionais reunidos em Portugal.

Reuniões dos Comissários Internacionais
Naquele mês de Setembro de 1950 tiveram igualmente lugar três importantes reuniões internacionais de dirigentes escotistas, com presença de dezenas de delegados, a saber: Reunião dos Comissários Internacionais, Reunião do Comité Internacional do Escotismo e Reunião da Comissão de Estudo dos Antigos Escoteiros.
Aos participantes foi dispensada uma carinhosa recepção e as reuniões decorreram no Forte das Maias, em Santo Amaro de Oeiras.
Dessas reuniões e das actividades que à volta delas se realizaram, fez larga reportagem quase toda a imprensa diária portuguesa e até alguma estrangeira, procurando dar a esses acontecimentos o relevo que eles mereciam.
Mas o acolhimento feito aos Comissários Internacionais e membros do Conselho Internacional do Escotismo não se limitou às reuniões no Forte das Maias, pois aos visitantes foram proporcionadas duas excursões visitando os mais belos lugares dos arredores de Lisboa, especialmente as Serra de Sintra e Arrábida. A comissão de recepção, orientada por José Maria Nobre Santos, Secretário das Relações internacionais da AEP, não se poupou a esforços para que os visitantes levassem de Portugal recordações inolvidáveis.
A visita ao Acampamento Nacional, marcou outro momento alto das actividades dos Comissários, proporcionando-lhes contacto directo com o Escotismo praticado em Portugal, tendo apreciado muito o trabalho genuíno desenvolvido pelos Grupos, com seus campos montados com muita arte e engalanados com gosto.

A presença do Director da Repartição Mundial do Escotismo
Por convite das duas associações escotistas portuguesas, ficou o Coronel Wilson mais alguns dias em Portugal para que, com mais sossego e intimidade, os dirigentes portugueses pudessem trocar ideias com ele, para de um modo mais eficaz aproveitar dos seus conhecimentos e sugestões.
No dia 21, o Coronel Wilson visitou a Sede central da AEP, onde conferenciou com os directores dos Escoteiros de Portugal e com a Delegação de Lisboa do CNE. À noite, teve ainda oportunidade de visitaras sedes dos Grupos 5 e 53, onde foi alegremente recebido pelos seus escoteiros e dirigentes, seguindo depois para a Sociedade de Geografia onde reuniu com os chefes dos grupos de Lisboa da AEP, aos quais dirigiu palavras de estímulo e confiança no engrandecimento do Escotismo, apelando para que todos se devotassem mais às suas unidades e ao Movimento.
No dia 23 partiu para o Norte de automóvel, acompanhado dos Comissários Internacionais das duas associações, Chefe Geral da AEP e do Major Leo Borges Fortes, delegado do Brasil. À chegada ao Porto foi recebido pelos dirigentes escotistas daquela cidade e, à noite, assistiu a um festival promovido pelo CNE nos claustros da Sé Catedral.
O Coronel Wilson foi igualmente recebido em Guimarães e Braga, onde o CNE lhe prestou significativas homenagens.

Presença de Portugal no Jamboree de Salzburgo
Por distracção administrativa, ou falta de meios, esta importante actividade escotista quase passou despercebida à direcção da AEP, que se limitou à presença de um observador, o Chefe Regional de Lisboa Ernesto Clímaco, que viajou a expensas suas. O CNE enviou uma pequena delegação, constituída por dois escoteiros juniores e alguns seniores.
Entretanto, o jornal “Sempre Pronto” fez questão de estar presente com os seus três elementos principais – Eduardo Ribeiro, director; Capitolino Macedo, administrador; Joel Ribeiro, redactor principal, garantindo assim aos seus leitores o relato de tudo que ali se passou. Damos por isso lugar à brilhante pena do saudoso companheiro Joel Ribeiro, que nos descreve com entusiasmo a região onde o acampamento ficou instalado:
“O Jamboree ficava a cerca de 50 kms da cidade e era necessário tomar um pequeno e vagaroso combóio que nos conduziria até às proximidades de Bad Ischl. A viagem era sugestiva: ao pitoresco comboiozito e à agradável companhia de um punhado de alegres militares franceses das forças de ocupação da Áustria, mas que, como escoteiros que eram, se dirigiam também para o grande acampamento, juntava-se o maravilhoso da paisagem. A região de Salzkammergut é considerada das mais belas da Europa.
… O percurso que o combóio ia cobrir era de facto dos mais surpreendentes que nos tem sido dado observar… É difícil descrever o encanto desses vales viçosos, com mil e um chalés de camponeses disseminados por toda a planície, ou a majestade dos cumes esbranquiçados pela neve, sobranceiros a lagos formosos e solitários! Pois era esta região que íamos atravessar…”

O “Jamboree da simplicidade”, como foi chamado,não obstante contar com o patrocínio do Presidente da República Austríaca e registar a visita de Lady Baden Powell, viúva do Fundador, apresentou algumas falhas de organização, nomeadamente falta de iluminação, deficiente serviço de correios e carência de intérpretes nas informações, mas estas foram largamente compensadas, como afirmou Joel Ribeiro: “É justo que a par destas deficiências falemos também de tudo aquilo que nos impressionou favoravelmente. Em primeiro lugar,devemos dizer que ficamos encantados com a hospitalidade dos escoteiros austríacos e também de todo o povo daquele país. É de enaltecer a afabilidade com que o povo recebia os forasteiros…”
As delegações estavam distribuídas por sete subcampos, destacando-se, pelo número, os da Áustria, Estados Unidos, França, Inglaterra, Suíça, Itália e Alemanha. No total estiveram acampados cerca de 18.000 escoteiros.

A Conferência Internacional do Escotismo
Nos três primeiros dias de Agosto, realizou-se em Salzburgo a Conferência Internacional do Escotismo, na qual os Escoteiros de Portugal estiveram representados por José Maria Nobre Santos, secretário das relações internacionais e Alexandre Ascenção Cardoso. Pelo CNE estiveram presentes: D. José Paulo de Lencastre, chefe nacional adjunto, Victor Lima e Santos, secretário das relações exteriores e Padre José Pinto Pereira.
A Conferência ocupou-se de diversos assuntos, entre os quais a admissão da Associação dos Escoteiros de Israel e a organização associativa dos Antigos Escoteiros.

Acampamento Internacional de Patrulhas
Desta vez estava atenta a Direcção associativa e empenhado o secretário das relações internacionais, Eng. Nobre Santos. A Direcção tornou possível a ida de um contingente de escoteiros a Inglaterra para participar no primeiro Acampamento Internacional de Patrulhas, que teve lugar em Agosto de 1951, em Gillwell Park.
A notícia desta actividade fez exultar de alegria os escoteiros seleccionados em diferentes grupos de todo o País, os quais constituíram duas patrulhas, que foram acompanhadas pelos chefes Jacinto Moniz Silva e Armando Lino. Os escoteiros viveram uma bela aventura na viagem de 3 dias no “Higland Monarch”, que os transportou de Lisboa para Sauthampton, onde chegaram no dia 16. Ali foram recebidos por escoteiros ingleses que haviam programado oferecer-lhes uma semana de estadia em suas casas e proporcionar-lhes um magnifico programa de visitas e passeios, pelo que as patrulhas se separaram, seguindo uma para Londres e outra para Barking uma pequena cidade dos subúrbios, com cerca de 80.000 habitantes.
Essa semana constituiu uma bela jornada de confraternização, guardando os jovens portugueses em seus corações a magnífica lição recebida dos escoteiros ingleses, pela maneira afável como foram recebidos por eles e no seio das suas famílias, tão gentis e hospitaleiras.
Chegados a Gilwell na manhã do dia 22, um bonito parque situado numa extremidade da floresta de Epping, os escoteiros depararam com um enorme acampamento, como se fora uma pequena cidade dividida em freguesias (subcampos), onde existia tudo que era indispensável (e mesmo o dispensável) para o funcionamento de uma grande actividade como aquela em que foram instaladas cerca de 800 tendas e foi visitado por mais de 20.000 pessoas.
O carácter internacional das actividades e as diversas competições realizadas, além dos desfiles, concentrações e Fogos de Conselho (3) deram grande animação e colorido aquele evento e deixaram nos participantes recordações inolvidáveis.

Continuidade e optimismo
A quantidade e natureza das actividades que se desenvolveram em tão curto espaço de tempo deram à década de 50 uma perspectiva de que os Escoteiros de Portugal iam, finalmente, entrar numa fase de grande desenvolvimento. Era também essa a convicção do Engº Nobre Santos quando em Dezembro de 1951, já empossado do cargo de Escoteiro Chefe Geral, falava ao jornal “Sempre Pronto”, sobre as directrizes e os projectos dos dirigentes associativos: “a Direcção está trabalhando com afinco nos preparativos da reforma do Regulamento Geral da Associação, a Conferência de Dirigentes reunirá no próximo verão e esperamos realizar também um grande acampamento da Região Centro, onde talvez tomem parte alguns escoteiros ingleses. Em 1953, o 40º aniversário da AEP será comemorado com um acampamento nacional, para o qual se pensa convidar o CNE e delegações de países estrangeiros”. Todavia, a partida do engº Jorge Jardim para Moçambique, nomeado para a Administração de uma grande empresa industrial, tornou inviável a continuidade do seu trabalho como Presidente dos Escoteiros de Portugal e logo se fizeram regressar os desentendimentos entre os dirigentes e a instabilidade voltou ao seio da AEP.
Por iniciativa do engº Nobre Santos, Escoteiro Chefe Geral, reuniram-se dirigentes e antigos escoteiros, em 19 de Setembro de 19552, para anáise da crise associativa e apresentação de sugestões sobre nomes para a Presidência.
Também serviu aquela reunião para apresentação do projecto de alteração dos Estatutos da Associação, que foi contestado em algumas das suas formulações, que os antigos escoteiros fizeram abortar.
Finalmente, nos dias 5 a 8 de Dezembro, realizou-se a Conferência Nacional de Dirigentes, que teve lugar no Pavilhão dos Desportos, em Lisboa, à qual foi proposto, como candidato único, o Comandante Henrique Tenreiro, que foi eleito por aclamação.
Henrique Tenreiro, antigo escoteiro e figura de grande relevo na vida nacional, veio a encarar com muita simpatia e interesse a Presidência dos Escoteiros de Portugal, mas o seu empenhamento político e a falta de tempo para dispensar ao seu cargo a atenção que merecia, gerou muitas situações das quais, contrariamente ao que poderia esperar-se, a AEP saiu sempre prejudicada.

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