sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

ECOS LONGÍNQUOS DO JAMBORI MUNDIAL DA PAZ


Eduardo Ribeiro, Capitolino Macedo e Joel Ribeiro,
delegados do Sempre Pronto no Jambori da Paz, em 1947

Um acontecimento Escotista verdadeiramente histórico

Em 1947, havia terminado há pouco a famigerada II Guerra Mundial que, de forma tão dolorosa, ensombrara durante anos o mundo inteiro, realizou-se em Moisson, uma pequena povoação ao norte de Paris, o VI Jambori Mundial do Escotismo, o qual recebeu a designação especial de “Jambori Mundial da Paz”, em virtude do conflito mundial ter terminado pouco tempo antes, cerca de 2 anos.
Foi um acontecimento excepcional, retumbante mesmo, que teve uma feição talvez impossível de ser repetida, uma vez que o mundo acabara de sair de uma conflagração invulgar, que afectara o mundo inteiro, por-tanto muito difícil de, felizmente, ter uma repetição.
Os Escoteiros de Portugal, bem como o Corpo Nacional de Escutas, estiveram lá presentes e bem assim o jornal escotista “Sempre Pronto”, nessa altura um jovem órgão de Imprensa que vivia no interior da nossa Associação. Foram seus representantes o seu director, o meu irmão, Eduardo Ribeiro, o seu administrador, o Capitolino Macedo, e eu. Tratou-se de uma resolução que permitiu que o nome da nossa Associação não passasse despercebido neste importante certame escotista.

Um dos mais assinaláveis momentos desta deslocação ocorreu durante a passagem destes três escoteiros pela cidade de Madrid, onde tinham feito a primeira paragem. A Espanha, nesses anos, estava dominada pelo regime totalitário imposto pelo general Franco, o qual, como é sabido, não autorizava a prática do Escotismo naquele país. Esta a razão porque, durante a passagem dos aludidos escoteiros portugueses por Madrid, visto que eles, durante toda a viagem, seguiam devidamente uniformizados, causar enorme espanto entre a população. De uma maneira geral, o povo espanhol ignorava, por completo, o Escotismo. Naqueles tempos, as viagens ao estrangeiro eram uma actividade mesmo rara. Nem os portugueses iam a Espanha, nem os nossos vizinhos nos visitavam. E o mesmo sucedia em todo o mundo. Por isso, eles ignoravam totalmente o que era o uniforme escotista.
A presença dos escoteiros portugueses uniformizados tinha, por isso, de causar grande surpresa e foi motivo de enorme e inesperada sensação! Muitos dos madrilenos exclamavam: “son requetés!”, o que nos deixava muito intrigados. Que significava o termo “requeté”, não sabíamos. Só mais tarde, consegui averiguar que essa palavra denominava os membros de um movimento político-militar armado, de carácter carlista, espanhol, o qual, durante a guerra civil do país vizinho, fora incorporado na Falange espanhola e lutara, durante esse conflito, ao lado das tropas do general Franco. Nunca me foi dado saber se o uniforme dessas forças se assemelhava, ou não, ao do movimento escotista.
Durante esse dia, passado todo em Madrid, deu-se um caso de muita importância:
Quando percorríamos uma das ruas centrais da capital espanhola, fomos abordados por dois jovens daquele país, os quais nos disseram que eram antigos escoteiros espanhóis, mas que não podiam praticar o Escotismo por isso lhes estar oficialmente vedado. Disseram-nos que se chamavam José Forasté Oliver e José Magallón Marrón. Manifestaram grande admiração por estarem a ver escoteiros uniformizados na sua terra, o que lhes causava, como é natural, grande espanto e saudade.
Tínhamos de prosseguir a viagem para França. Ficou combinado, por isso, que no regresso do Jambori tornaríamos a encontrar-nos com eles. E assim sucedeu. À volta contactamos de novo com esses jovens, agora já na companhia doutros antigos escoteiros da nação vizinha, entre os quais se encontrava Enrique Genovés, natural de Valência, que tivemos então o gosto de conhecer, o qual se tornaria um grande amigo dos escoteiros portugueses e um valioso colaborador do jornal “Sempre Pronto”, onde usava o conhecido pseudónimo “Ojo de Lince”. Também sua esposa, a insinuante D. Loreto Azpeitia y Lopez de Ayala, possuidora de excelentes dotes literários, se tornou igualmente colaboradora do nosso jornal.
Genovés foi, mais tarde, um credenciado dirigente do Escotismo espanhol, movimento que ressurgiu após a extinção do regime franquista. Escritor de muito mérito e reconhecida cultura, é o autor de relevantes considerações que ele fez, num impresso que tenho em meu poder, a propósito de meu Irmão, onde se lê: “Eduardo Ribeiro, el tantos años esforzado mantenedor de SEMPRE PRONTO, activo miembro de la Fraternal de Antíguos Escoteiros, falleció en Brasil”, o que corresponde a uma homenagem que, em Portugal, nunca lhe foi prestada, isto apesar de ele ter oferecido ao nosso movimento uma dedicação sem par, com vários anos como director do “Sempre Pronto”, jornal que quase não lhe sobreviveu, e ainda como chefe do Grupo nº. 94, como dirigente nacional, obreiro infatigável da Fraternal, activo precursor do Guidismo na nossa terra.
São estas algumas das considerações sugeridas pelos acontecimentos que marcam um dos períodos mais férteis do Escotismo Português e também deste movimento a nível mundial, factos que não é crível que se venham a repetir, já que se alterou, por completo, o panorama político e social em todo o mundo.
Joel Ribeiro

6 comentários:

Manuel disse...

As minhas felicitações pelo vosso notável blogue sobre o escotismo em Portugal.
Fiquei a saber da legislação de 1917 quando estava na Presidência da República meu Avô Bernardino Machado.
Certamente me permitem transcrever parte do texto referente, no meu blogue - "Bernardino Machado" -
http://manuel-bernardinomachado.blogspot.com
Saudações cordiais
ManuelMachado Sá Marques

FAEP - Escotismo Adulto disse...

Apreciámos o comentário do dr. Manuel Machado Sá Marques e agradecemos o interesse dedicado ao nosso blog.
Claro que está à vontade para usar o que ali está escrito, pois isso nos honra e é sinal de que estamos cumprindo a nossa Missão de divulgar o Escotismo. Ao que está escrito poderemos apenas acrescentar (por informação oral de contemporâneos, pois infelizmente se perdeu toda a documentação associativa daquele tempo)que o Presidente Bernardino Machado era um bom amigo dos escoteiros e lhes deu sempre o seu apoio. A ele ficámos a dever a promulgação do Decreto nº. 3120 - B, de 10 de Maio de 1917 que institucionaliza a Associação dos Escoteiros de Portugal e provas de confiança e simpatia nas intervenções cívicas dos escoteiros, durante o conturbado período de seu mandato, nomeadamente no grande incêndio do Arsenal de Marinha e greve dos Serviços de Correios e Telégrafos, e outras convulsões públicas em período da 1ª Grande Guerra.
O Dr. Bernardino Machado foi eleito em 1923 Vice-Presidente Honorário dos Escoteiros de Portugal, sendo Presidente Honorário o Dr. António José de Almeida, então Presidente da República.

Fernando disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fernando disse...

O Eduardo Ribeiro (à esquerda na foto), é o Eduardo Ribeiro Júnior, do grupo 94?
Obrigado.

FAEP - Escotismo Adulto disse...

Caro Fernando,
Trata-se efectivamente do Eduardo Ribeiro Junior que foi Chefe do Grupo n. 94 nos anos 40 e foi o fundador e director, durante largos anos, do jornal "Sempre Pronto". Foi também o autor de "História dos Escoteiros de Portugal" que utilizamos como biografia de apoio para o trabalho que tem vindo a ser aqui divulgado. Eduardo Ribeiro teve um filho, José Eduardo Pena Ribeiro, que também foi dirigente escotista, que teria dois/três anos de idade ao tempo da foto publicada.

Child Left Behind disse...

Eu sou um primo de Eduardo Ribeiro Jr., Sou Americano. Estou querendo saber o que acontenceu com ele. Ele sempre mandava noticias e visitava nossa familia mas tudo parou
depois de 1984. Por isso, eu imagino que ele deve ter morrido. A ultima. Eu o visitei em Manaus em 1984 e esta foi a última vez que eu o vi. Quero saber quando/onde ele faleceu e onde mora o resto a famila dele. Steve Pinto