domingo, 26 de dezembro de 2010

Da nossa história…(7)

Sinais de ressurgimento da A.E.P. e algumas honrarias (apoiada na História dos Escoteiros de Portugal - de Eduardo Ribeiro)

O período que decorre de 1918 a 1920 não é muito clarificador na vida da Associação dos Escoteiros de Portugal. O dr. Nuno Magalhães Domingues, que havia sucedido na Presidência da Direcção ao dr. António Sá Oliveira, que no fim de 1917 deixara aquele posto (após o regresso de Melo Machado para escoteiro chefe nacional), também abandonou o seu lugar. Sucede-lhe, então, o dr, António Augusto Curson, pessoa de grande prestígio nacional, que durante muitos anos cooperou com os Escoteiros de Portugal.
Mas, neste período também aconteceram coisas muito interessantes.
Eduardo Moreira, que desde a primeira hora assumia a pasta de secretário da AEP, continua a dar provas da sua grande dedicação e da sua enorme competência. Por diligências suas, o Governo Português deliberou distinguir o Fundador do Escotismo, Lord Baden-Powell, com a Comenda da Ordem Militar de Cristo, por reconhecer os relevantes serviços por ele prestados à humanidade.
Numa carta dirigida, nessa ocasião, aquele prestigiado dirigente escotista, B.P. manifesta a sua gratidão pela honraria que acabava de lhe ser concedida, carta essa que é uma verdadeira relíquia para os escoteiros portugueses:

“ Caro Senhor,
Estou profundamente grato pela honra com que o Governo da República Portuguesa se dignou distinguir-me, ao conceder-me a Comenda da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Sinto-me indigno, por completo, de semelhante honra no que diz respeito a qualquer acto da minha parte, mas calculo que o ter sido alvo desta distinção se deve unicamente aos bons ofícios dos dirigentes da Associação dos Escoteiros.
Dificilmente poderei exprimir como estou grato por esta sensibilizante prova da sua boa vontade. Se algo houver, em assuntos de Escotismo, que me permita provar que mereci tal honra, espero que mo digam.
Fico esperançado em ter a oportunidade, não muito distante, de me encontrar com alguns dos meus irmãos Portugueses.
Entretanto, com votos cordiais de bom êxito para o Movimen-to Escotista em Portugal e com renovados agradecimentos,
Creia-me sinceramente
a)Robert Baden Powell”


A este episódio se refere, ainda, B.P. num dos seus livros:

“Há algum tempo, na presença de grande número de escoteiros, recebi a Ordem de Cristo das mãos do Embaixador de Portugal, em recompensa daquilo que fazem os escoteiros neste país.
Agradecendo ao Embaixador, disse que me era feita uma honra particularmente grande, porque era uma Ordem conferida, em Portugal, aos antigos Escoteiros marítimos.
O Infante D. Henrique denominado O Navegador pelas suas viagens aventurosas e pelas suas engenhosas invenções para ajudar os marinheiros a encontrar a sua rota, era ele próprio Grão-Mestre da Ordem de Cristo e foi graças a ele que Portugal produziu uma série tão maravilhosa de aventureiros e colonizadores.
Provavelmente uma ou duas pessoas acharam que eu fazia demasiado caso de Portugal e disseram-me: e os nossos lobos-do-mar britânicos, os Hawkins, os Drake, os Raleigh, os Gilbert? Tive de responder em minha defesa: “Lede a história e vedes que o Cabo da Boa Esperança foi descoberto por Dias em 1487; a Índia por Vasco da Gama em 1498; o Brasil por Cabral em 1500; e a América do Sul, no ano seguinte por Américo Vespúcio, enquanto Magalhães descobria, ao sul da América, o estreito de seu nome, tão terrivelmente perigoso, em 1519. Todos portugueses ou espanhóis.
É verdade que Hawkins esteve à vista do Brasil, Martin Frobisher explorou a Passagem do Nordeste em três viagens diferentes; “sir” Walter Raleigh explorou as Índias Ocidentais e o Orenoco, no norte do Brasil; William Adams alcançou, em primeiro lugar, o Japão e ligou-se de amizade com os japoneses, em 1600; “sir” Humphrey Gilbert fundou a colónia da Terra Nova; e John Hawkins abriu a África Ocidental ao comércio, enquanto “sir” Francis Drake fez a volta ao mundo, seguindo Magalhães através dos estreitos que ele tinha descoberto.
Mas há uma diferença de datas. As descobertas dos portugueses foram feitas no tempo dos avós e dos pais dos nossos marinheiros.
Se os nossos compatriotas fizeram face às dificuldades e aos perigos com pequenos barcos insuficientes, maus instrumentos e pobres provisões de boca, isto dá uma fiel ideia da coragem dos outros homens que estavam ainda mais mal colocados no que diz respeito a este assunto, quando se faziam à vela para o desconhecido.
Com toda a lealdade é preciso prestar homenagem a quem de direito.
Espero que vos lembreis disto quando encontrardes nos Jamboris irmãos escoteiros doutros países.”


Para o glorioso combatente de Mafeking e denodado batedor da selva africana, nenhuma outra homenagem poderia estimular mais o seu orgulho do que ser distinguido com a mesma condecoração com que outrora eram agraciados os nossos bravos e arrojados navegadores de Quinhentos, que foram autores da mais bela das epopeias marítimas, os verdadeiros Escoteiros marítimos da Antiguidade.


PRESENÇA DE PORTUGAL NO I JAMBORI MUNDIAL
A delegação portuguesa ao I Jambori mundial

O primeiro Jambori mundial realizou-se em Londres, no vasto recinto Olympia, em 1920. Esta reunião de escoteiros de vários países foi uma notável iniciativa de Baden-Powell, que se transformou numa tradição indispensável do Movimento Escotista.
Não era fácil, naquele tempo, constituir uma delegação para representar Portugal em tal acontecimento. Foi Robert Moreton, presidente do Grupo n.º 1 o grande impulsionador desta representação, fazendo todas as diligências e removendo obs-táculos, para reunir uma delegação de 11 elementos, constituída de entre os mais entusiastas escoteiros e dirigentes, a saber: Humberto Martins, Albano da Silva, Alberto Lima Basto, Joaquim Duarte Borrego, Carlos Frias, Henrique de Barros, Dinis Curson, José Maria Galvão Teles, Sobral Martins, Franklin de Oliveira e José Borrego.
Esta delegação foi rodeada da atenção própria de uma representação nacional, tendo o Ministério dos Negócios Estrangeiros concedido passaporte diplomático a quase todos os nossos representantes, o que evidencia o interesse que mereceu a nossa presença em Inglaterra.
Robert Moreton, súbdito inglês, acompanhou a delegação e, em Inglaterra, continuou a apoiá-la e a prestigiá-la.
Grande parte dos nomes atrás referidos, vieram a marcar a vida da A.E.P., destacando-se como dirigentes escotistas com relevantes serviços prestados.
A cerimónia mais expressiva desta primeira reunião de escoteiros das mais diversas partes do mundo, foi a manifestação espontânea dos milhares de rapazes presentes que aclamaram Baden-Powell como Escoteiro Chefe Mundial, título que não voltou a ser dado a mais ninguém depois da sua morte, que ocorreu em Janeiro de 1941.

1 comentário:

João Bernardo Galvão Teles disse...

O meu avô José Maria Galvão Teles parece estar retratado nesta fotografia. Gostaria de saber se será possível disponibilizar-ma em formato de maior dimensão, para ter maior definição na ampliação e, caso confirme ser o meu avô, integrar o meu espólio familiar.
Agradeço, desde já, a atenção.
João Bernardo Galvão Teles